quarta-feira, 14 de novembro de 2012

FADO PORTUGUÊS


Os seus apêndices tremem há muito,
mas o povo não percebe.
Nem sua família,
desalfabetizada há séculos.

E ela só se ria,
saia à rua e ria das reviravoltas que a vida não dá
mesmo que outros queiram mudar o sentido de tudo.

Então, enegreceu o dia lindo.
Ela deixou o bar trôpega,
cansada da rotina
e daquele acordo que retirou
a sua individualidade,
a sua personalidade
de velha formadora de novas teorias.

Haviam lhe dado outros três filhos.
Haviam retirado suas ênfases
e até seu chapéu!
Seu velho chapéu
que tanta distinção lhe tinha dado.

Percorreu a via que acompanhava
o antigo canalete fedido
aos tropeços, tombos, rastejamentos,
outros hematomas e gargalhadas,
que feriam o seu corpo
de onde se provinha
um cheiro de álcool e boteco velho.

Ela olhou a água barrenta de sujeira
e outras porcarias expelidas
pelos moradores das ruas da vida,
que nem um adjetivo desejam aprender.

Mesmo assim, sorriu a última risada,
murmurou o último verbo,
e pulando a velha amurada
jogou-se no lodo acumulado,
morrendo engasgada com a última sílaba
e afogada pela água que não batia na canela.

O corpo foi achado e não identificado.
Após devidamente limpo
foi doado ao necrotério
para ajudar os estudantes a fazer medicina
com retalhos de palavras antigas.

A família,
ao saber do acontecido,
até se lamentou.

Sua filha mais velha
chorou uma lágrima e concluiu:
“É uma pena.
Era muito querida.
as não entendia as modernidades...
Era uma poesia velha e bêbada.
Acabou na sarjeta como era esperado”.

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